Mor certamente era uma figura. Na infância, costumava viajar por todos as aldeias e cidades próximas de seu lar, o vilarejo hobbit, pois seus pais, mercadores de produtos típicos de sua raça, como arcos pequenos e brinquedos simples e divertidos, faziam negócios de Cronisia a Naer’thi. Naquela época, o pequeno Mor passou a admirar os nobres e altivos guardas de Cronisia, sonhando em ser como eles quando crescesse, mas seu interesse por esse tipo de vida talvez tenha sido influência de seu velho pai, uma vez que ele fora capitão do único exército que já existiu em Habut. Ainda assim, tudo correu bem durante a maior parte de sua infância, porém, quando estava na porta da adolescência e começou a perguntar à sua amada mãe, uma bondosa e insatisfeita mulher de família, porque nunca ficaria do tamanho dos reluzentes soldados que tanto admirava, ela não sabia o que responder, apenas dizendo que Mor era grande o suficiente para um hobbit. Entretanto, esta resposta o satisfez até a vida adulta, quando, após uma juventude feliz e comum, ele enfim alistou-se à guarda de Habut, embora soubesse que aquilo não era nada perto da guarda de Cronisia, acostumada a repelir os orcs do Vale dos Intrépidos de volta para Dar’Arlicha. Anos depois, ao completar 23, Mor conheceu aquela que seria sua esposa, uma hobbit chamada Marta, e ela dizia vir de um lugar distante, onde os outros de sua raça eram apenas fanfarrões e desocupados; e aquilo soou estranho nos ouvidos do impetuoso e energético Mor, pois sua personalidade forte o tornara cético e desconfiado. De qualquer forma, enquanto se encantava cada vez com os mistérios de Marta, treinava sozinho na sede da guarda da cidade, já que os outros soldados preferiam comer e beber ao invés de aperfeiçoarem-se. Então, dois anos depois e já com o corpo que considerava forte o bastante para galantear a jovem estrangeira, Mor a pediu em casamento, e, para seu alívio e surpresa, ela aceitou, mas não pelo corpo do noivo, e sim por ele ser o único na conservadora cidade a mirá-la nos olhos, embora o orgulhoso Mor achasse ser pelo outro motivo. E o casamento foi ótimo no início, pois os dois completavam um ao outro; Marta era sensível e educada, sempre controlando os excessos do marido temperamental, e Mor, por ser indiscreto e desinibido, ajudou a esposa a sair da concha e fazer mais parte do dia a dia de Habut. Porém, a relação dos dois decaiu muito nos meses seguintes, e praticamente no mesmo momento em que Marta começou a sentir falta de seu antigo lar, Mor passou a freqüentar a sede da guarda cada vez mais, tentando assim diminuir a infelicidade da esposa da única forma que conseguia conceber. Mas não deu certo, e a triste situação chegou ao limite certo dia, quando os gritos de uma ardorosa briga entre eles acordou a cidade inteira: tudo começou porque Mor voltou tarde para casa e encontrou Marta chorando num canto, e ela segurava na mão o único objeto que trouxera de casa, um minúsculo boneco de um hobbit pequeno e fraco. Mor ficou um longo tempo observando aquela cena, e sentia um ódio amargo dominar seu peito, pois a visão do brinquedo o fazia lembrar do quanto ele mesmo era pequeno e fraco, por mais que tentasse ser grande como vira um dia seu pai ser. Entrementes, Marta enfim levantou a cabeça e o viu, mas somente lutou inutilmente para tentar impedi-lo de destruir o boneco. E aquilo foi à gota d’água para ela, que na seqüência acusou-o de nunca estar em casa e de ser um marido incapaz de lhe dar filhos. Ele respondeu com um tapa. “Você é igual a minha mãe!”, gritou Mor, espumando de raiva. “Você não vai me convencer a ser pequeno!”, insistia ele. Enquanto isso, Marta começava a chorar no chão, mas de repente parou; então ficou de pé, e em seguida começou a rir, fazendo Mor recuar aos tropeços. “Olhe para você”, disse ela avançando e empurrando-o para trás. “Você não é pequeno”, continuou Marta num tom agressivo. “Você é minúsculo. Você é menor que o boneco que acaba de destruir. As crianças riem de você e as mulheres o esnobam, pequeno Mor”. Então ele caiu no chão, assustado. “Fique longe de mim, maldita”, bradou. “Cale-se”, zombou Marta. “Você é patético. Saia daqui rastejando como um verme e diga para seus amigos que foi expulso de casa por sua própria esposa, a pobre e indefesa Marta”. E foi assim que Mor saiu de casa, expulso a chutes por uma frágil mulher. Ele acabou passando a noite na rua, como um cão raivoso proibido de dormir dentro do lar. Mas o dia seguinte nasceu belo, parecendo zombar da situação humilhante, e Mor acordou antes de todos, pois viu uma linda carroça dourada subir estrada adentro. A carroça parou logo depois, e uma figura encapuzada, com ares de nobreza, saiu de dentro da condução e pediu para seus lacaios cravarem uma chamativa placa no chão. Em seguida, todos voltaram para dentro da carroça e saíram a toda velocidade, como se ali nunca tivessem estado. Curioso, Mor aproximou-se da placa quando começou a ouvir movimentação dentro das tocas próximas, e então leu depressa: “Chamada geral para os melhores homens de Habut se apresentarem no portão da fortaleza da Sociedade, onde aqueles do reino de Inera com maior disposição serão colocados contra nossas melhores guerreiras, em uma espécie de duelo não-mortal para decidir apenas uma vaga entre nossa valorosa e exigente organização. Os interessados que se apresentem antes do fim da tarde. Assinado por Atma & Alexandra.”, era a escrita na placa, em caligrafia bonita e trabalhada. Agindo sem pensar, o hobbit arrancou a placa do chão e depois a atirou num lago fora da cidade, perto do Largo das Tempestades. Aquela poderia ser a oportunidade para ele mostrar todo o valor, pensou, e não deixaria os hobbits preguiçosos de Habut tirarem isso dele, nem muito menos sua esposa ingrata. “Sim, eu vou ser o escolhido e depois a Marta vai implorar para voltar para mim”, murmurava Mor baixinho enquanto ria, pois a tal organização tratava-se sem dúvida da Sociedade das Rosas de Fogo, a maior fonte de renda de seus pais. Então, antes mesmo do final da tarde, Mor voltou à cidade e pegou sua espada longa e armadura na sede da guarda, e na seqüência saiu correndo em disparada, chegando na fortaleza em cima da hora. E, à primeira vista, enxergou apenas um pavilhão armado em frente ao portão e um grande grupo de homens ao redor, e dentro da enorme tenda havia um pequeno ringue cavado no chão, onde um dos desafiantes olhava ansioso para duas figuras de capuz sentadas em cadeiras luxuosas. A noite acabou chegando rápido, pois nenhum dos homens, nem mesmo os mais fortes, duravam mais do que alguns segundos contra as guerreiras, que se revezavam na arena, e Mor apenas os observava cair, apesar de ser alvo de riso da maioria dos lutadores. Entretanto, quando chegou sua vez, após todos os desafiantes serem rechaçados e ficarem gemendo de dor num canto, ele se adiantou das visivelmente decepcionadas guerreiras e disse seu nome, mas adicionou “O Gigante” no final, e ainda por cima recusou-se a descer no fosso. “Eu não vou descer aí para ser avaliado com um cão”, disse sorrindo, e as duas olharam-se incrédulas com a ousadia do pequeno hobbit. “Venham até mim, se quiserem testar-me, mas venham as duas”, desafiou o corajoso Mor, porém, as duas caíram na risada. “Pois bem, como quiser, pequeno mestre”, concordou uma delas, ficando séria de repente. Então as duas, exibindo grande habilidade, deram um grande salto por cima da arena e cada uma caiu de um lado de Mor, flanqueando-o como lobos famintos. “Apenas me diga uma coisa, pequenino”, disse a outra, “Tem certeza que consegue segurar uma espada tão grande?”, provocou ela, deixando o hobbit furioso, mas ele manteve a calma e sorriu sarcasticamente. “Eu lhe respondo, senhora”, disse Mor num tom provocador, “Mas apenas se me disser porque esconde o rosto...”, desafiou ele, e subitamente elas pararam de avançar. “Seria para esconder uma face medonha demais para ser exposta?”, perguntou Mor maldosamente, mas na seqüência desejou não o ter feito, pois as duas ficaram furiosas e avançaram sobre ele, revelando cada uma duas espadas curtas debaixo dos compridos mantos; o hobbit mal conseguiu defender-se, acabando com dois arranhões profundos no tronco. Em seguida, tentou atacar com sua espada longa, mas errou feio e acabou pagando pela arrogância de não usar um escudo. Felizmente, as duas haviam recebido ordens para não matar, e somente derrubaram-no no chão com golpes limpos. “Fique no chão que é o seu lugar, cão”, disseram as duas ao mesmo tempo, e depois o atiraram dentro do fosso e saíram rindo. “Eu disse para Atma que não havia motivo para um teste deste tipo, porque não há sequer um homem de verdade por estas bandas”. Porém, um rosnado alto interrompeu a conversa das duas, e as temidas guerreiras olharam para trás, como se temessem a presença de worgs ou algo do tipo, mas viram apenas um pequeno vulto saltar de dentro do túnel e passar correndo por entre elas. E elas até tentaram atacar a sombra viva que as atacou, mas a criatura era rápida para ser atingida, e seus uivos selvagens tirariam a concentração do mais bravo paladino. Por fim, passado um tempo deveras humilhante para ambas as moças, foi o audacioso ser que acabou prevalecendo, pois acabou derrubando as duas depois de muitos golpes poderosos e velozes de espada, somente para no final revelar ser ninguém menos que Mor, o Gigante, espumando de raiva num ataque suicida. “Veja só”, disse uma delas após levantar e rechaçá-lo com facilidade no final do surto, “Parece que eu estava enganada”, concluiu. “Vamos, pequeno mestre, siga-nos e aproveite da bondade de nossas senhoras”, disse a outra, “Você acaba de tirar a sorte grande”. “É”, disse Mor num tom estranho enquanto ultrapassava o portão e vislumbrava a bela fortaleza, “Parece que sim”, resmungou.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Albaria: Primeiro PC
Abaixo segue o primeiro background, ou origem, que eu escrevi para o Albaria. Foi por volta de 2005 e saiu um pouco grande. É sobre um halfling chamado Mor:
domingo, 25 de novembro de 2007
Futuro
O mundo é este e ninguém da minha geração irá mudá-lo, nem mesmo eu. Não posso, não quero, não sei fazê-lo como todo o resto, simplesmente não sou essa pessoa. Um dia surgirá alguém que saberá fazê-lo, um gênio, um sábio, muito à nossa frente na escala evolutiva. O que nos resta?
Outros se desesperam, voltam-se contra o governo e o sistema, afundados no caos e na baderna, achando que o novo opressor, aquele de seu agrado, será melhor que o anterior. Eles se separam em lados fictícios, odeiam e culpam o outro lado por tudo, um ódio muitas vezes camuflado, escondido por trás de uma máscara de compreenssão e civilidade. No fundo, porém, são como animais se dirigindo ao abate, planejando vingança um contra o outro através do voto, quando todos são as vítimas, escravos da autopiedade.
Quanto a mim? Não pensem que os odeio, eu os amo, seria como eles não fossem as mazelas da vida. Admiro suas esperanças tolas, o que possuem de bom e ruim. Mas não sou como eles, não penso como eles, simplesmente não sou essa pessoa. Então uso dessa posição para o meu manifesto. E o que me resta?
O futuro. Esperar que um dia o mundo esteja pronto para mudar e que apareça a pessoa certa, no lugar certo. É questão de matemática. Mas não será neste mundo, nem no meu tempo nele. Mas um dia será, pois eles ainda tem esperança.
Outros se desesperam, voltam-se contra o governo e o sistema, afundados no caos e na baderna, achando que o novo opressor, aquele de seu agrado, será melhor que o anterior. Eles se separam em lados fictícios, odeiam e culpam o outro lado por tudo, um ódio muitas vezes camuflado, escondido por trás de uma máscara de compreenssão e civilidade. No fundo, porém, são como animais se dirigindo ao abate, planejando vingança um contra o outro através do voto, quando todos são as vítimas, escravos da autopiedade.
Quanto a mim? Não pensem que os odeio, eu os amo, seria como eles não fossem as mazelas da vida. Admiro suas esperanças tolas, o que possuem de bom e ruim. Mas não sou como eles, não penso como eles, simplesmente não sou essa pessoa. Então uso dessa posição para o meu manifesto. E o que me resta?
O futuro. Esperar que um dia o mundo esteja pronto para mudar e que apareça a pessoa certa, no lugar certo. É questão de matemática. Mas não será neste mundo, nem no meu tempo nele. Mas um dia será, pois eles ainda tem esperança.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
O Soldado Invernal
Sua passagem no Capitão começou um tanto discreta, mas de maneira muito competente, inteirada no contexto pós-11/09. A principal razão do sucesso inicial da revista e grande acerto da parte de Brubaker, foi o foque especial dado ao lado psicológico do simbólico protagonista, que diferente de antigas versões datadas, não é um sentinela da liberdade, e sim um soldado que de vez em quando precisa sujar as mãos e tomar atitudes extremas quando necessário. Seu estilo é mais Jack Bauer do que Superman, como um dia Ed Brubaker colocou. Logo na primeira edição o autor já deixou bem clara a mudança: após sua última missão, na qual causou a morte de dois terroristas para impedir um atentado, ele é questionado por sua antiga namorada e agente da S.H.I.E.L.D. Sharon Carter, pois não costumava agir assim. Uma declaração verdadeira, levando em conta que ao longo de sua setuagenária história nos quadrinhos o Capitão só havia tirado a vida de um inimigo uma única vez e nem mesmo durante a 2ª Guerra Mundial era admitido que ele matou alguns nazistas, sendo que fora criado pelos americanos para ser uma arma viva. Mas como citei antes, essa mudança de comportamento é um mero reflexo dos conflitos internos do personagem, na forma de pesadelos sobre a guerra e uma raiva misturada com desprezo em relação ao próprio país e os tempos modernos.
Para entender melhor o contexto dessa transformação é preciso lembrar do evento A Queda, onde a mutante chamada Feiticeira Escarlate, integrante do grupo Vingadores (ao qual o Capitão América liderava na época), perdeu o controle dos poderes de alteração da realidade e indiretamente causou a morte de alguns companheiros. A tragédia foi o elemento catártico que iniciou a nova fase da linha que englobava a revista Avengers e os títulos solo de seus membros mais clássicos, como o Homem de Ferro e Thor (este último teve sua revista simplesmente cancelada, para voltar somente há 2 meses atrás nos EUA), e mesmo tendo vital importância na direção que o Brubaker deu ao Capitão, o melhor exemplo continua sendo o que Ellis e seus sucessores fizeram ao Homem de Ferro, que levou o maior baque por sempre ter sido o financiador e grande entusiasta da equipe. Resumindo rapidamente, Tony Stark assumiu a postura de futurista e todas as atitudes que tomou depois disso foram para prevenir ou deter ameaças antes que elas se tornassem grandes demais, como foi o caso da Feiticeira Escarlate. Todos sabiam do perigo que sua mente cada vez mais frágil representava, mas ninguém teve a coragem ou visão de cuidar do problema. Outro aviso de que a inocência e otimismo descompromissado do passado haviam chegado ao fim.
Em Capitão América, por outro lado, Brubaker optou por esclarecer lentamente a mudança de Steve Rogers, fazendo o velho soldado direcionar sua frustração ao serviço, até porque gente da época dele não costumava expor os sentimentos. Porém, para ele suas atitudes agressivas são proporcionais ao mundo cada vez mais perigoso em que vivemos, onde nem mesmo um governo corruptível é confiável. Esse é o tom ao longo do razoável primeiro arco, com o Capitão preferindo descontar sua frustração nos inimigos ao invés de lidar com a repercussão d'Queda, tendo de engolir a burocracia que o impede de pôr as mãos no homem responsável por ataques terroristas, e só enfrentando os próprios problemas nos pesadelos da guerra ao lado do falecido parceiro Bucky. No fim do arco ele descobre que o eficaz assassino que trabalha para o vilão Aleksander Lukin, ex-general soviético que virou um rico empresário, é ninguém menos que Bucky, seu amigo dado como morto na guerra. Bucky, agora com o nome de Soldado Invernal, é um mítico agente soviético que matou inimigos da Rússia durante a Guerra Fria, herdado por Lukin das mãos de outro general, um homem chamado Valery Karpov, que lutou ao lado do Capitão América na 2ª guerra e se sentiu humilhado por seguir ordens de um inferior.
Sua vingança começou quando encontrou o corpo de Bucky conservado em gelo após o mesmo acidente que supostamente matou o Capitão, então tratou de seus ferimentos (inclusive um braço perdido, que logo foi trocado por outro mecânico), fez lavagem cerebral no rapaz e o transformou num soldado soviético que nunca desacata uma ordem. Claro que Karpov morreu antes de saber que sua criação encontrou o homem que tanto desprezava, o que tornaria ainda mais saborosa a sensação de transformar o melhor amigo dele num assassino sem consciência, mas Lukin fez questão de cumprir os desejos do falecido general ao usar o Cubo Cósmico para torturar seu inimigo com pesadelos da guerra e estranhas visões diurnas sobre o dia em que Bucky morreu. Tudo para piorar a terrível revelação e enfraquecer o Capitão. Além disso, no mesmo dia que o bandeiroso descobriu a origem do Soldado Invernal, Lukin usou seu capanga para detonar uma bomba incendiária na Filadélfia e matar centenas de pessoas, fazendo questão de atrair Rogers para a cidade no momento da explosão. Logo em seguida, no excelente arco intitulado "O Soldado Invernal", o Capitão descobre mais sobre o que houve com Bucky e "explode", destruindo um monitor de vídeo que mostrava as atrocidades cometidas pelo Soldado Invernal, então mesmo sem provas concretas que liguem Lukin ao atentado, decide atacá-lo em uma das sedes de sua empresa, a Kronas, mas novamente esbarra na burocracia ao descobrir que a Kronas comprou uma empresa petrolífera americana. Sem poder prender o ex-general, o Capitão embarca em outra missão, agora para salvar Bucky, que recebera a ordem de esconder o Cubo Cósmico numa instalação secreta.
Localizando o misterioso objeto com a ajuda de Tony Stark, o herói pede apoio ao amigo Falcão para acompanhá-lo e assim dispensa a ajuda da S.H.I.E.L.D., isolando-se completamente da lei, como Jack Bauer algum botaria defeito. Sem muita preocupação com o parceiro alado, o Capitão rompe a primeira barreira defensiva e invade o local, onde logo encontra o Soldado Invernal e tenta descobrir se Bucky ainda está ali antes de tomar medidas extremas para recuperar o Cubo Cósmico. De certa forma, ele precisa fazer isso antes de aceitar a realidade que seu amigo se foi para sempre, pois para o próprio bem deve acreditar que não é uma mera máquina programada para matar. Nas histórias antigas, Bucky era o parceiro-mirim do Capitão América durante a 2ª guerra e representava o ideal do jovem americano que voluntariamente escolhe servir seu país, e aqui representa a inocência que o protagonista e a própria Marvel perdeu. Imaginem só, o símbolo da juventude pró-guerra transformado num comunista assassino, ao mesmo tempo que o exemplo vivo do sonho americano lida com o fato que fizeram algo parecido com ele. No final, o Capitão consegue tirar o Cubo das mãos do Soldado Invernal e o usa para devolver ao rapaz suas memórias, mas Bucky, agora de volta a si, não reage bem e depois de recuperar o objeto novamente, o destrói e desaparece na explosão. Como aceitar ter se tornado exatamente o contrário do que sempre representou?
Claro, logo depois Bucky reapareceu e virou uma espécie de anti-herói e o nível da revista caiu um pouco, mas Ed Brubaker concorreu a uma série de prêmios por causa do arco "O Soldado Invernal", também conquistando o respeito dos fãs e alçando seu nome a um patamar até superior que seus parceiros do reload dos Vingadores. Guardadas as proporções, o considero apenas um autor competente que teve uma grande sacada. O mais importante é avaliar seu trabalho como uma avaliação do contexto atual da Marvel em relação aos EUA, algo que futuramente seria ainda mais aprofundado na Guerra Civil.
Mas isso é outra história...
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Filosofia de Tony Soprano: parte 1
No mundo da família Soprano o importante é tentar ser forte e não esquecer da própria humanidade no processo. Esse é um tema recorrente na vida de Tony, patriarca da família e chefão da máfia de Nova Jersey. Não que sua vida e forma de ser sejam um exemplo, mas dentro da metáfora da série ele é um herói, com lampejos de consciência e sabedoria, sempre em conflito com gente que tenta enfraquecê-lo, sejam familiares mesquinhos ou outros mafiosos com delírios de grandeza.
Para quem não acompanha a série, vou citar um exemplo: na 3ª terceira temporada surge uma figura chamada Ralf alguma coisa (esqueci o sobrenome agora), um sujeitinho metido que simboliza o que eu escrevi acima sobre mafiosos delirantes. Pior que isso, se trata de um louco, que maltrata mulheres e arma confusões. De cara Tony não gostou dele e deixou isso bem claro, mas pelo bem dos negócios e lucro pessoal que recebia, nada fazia a respeito. Certo dia, porém, Ralf perde o controle após ser confrontado por uma stripper grávida com quem tinha um caso e a espanca até a morte nos fundos do Bad-a-bing, inferninho que seu pessoal administra. Tony parte para cima dele quando descobre e é contido pelos companheiros, por quem é convencido a esquecer tudo pelos mesmos motivos que eu já citei. E fica por isso mesmo.
Se passa um ano e Ralf apronta novamente. Após seu filho sofrer um acidente e ficar em coma, ele dá sinais de estar se redimindo, chora e pede desculpas a um padre, todo aquele processo. Até melhora seu relacionamento com Tony. Mas talvez por inconscientemente saber a reação que sua próxima atitude traria, Ralf incendeia o potreiro que abrigava o cavalo de corrida (e xodó) de Tony (sem deixar nenhuma testemunha), animal pelo qual tiveram uma disputa no passado. Desconfiado, Tony visita o "amigo" e depois de enrolar um pouco pergunta sobre o bicho, Ralf nega no começo, também enrola, mas no fim admite. Não lembro quem deu o primeiro soco. O importante é que pouco tempo depois o corpo de Ralf está no chão, com a cabeça estraçalhada e o rosto irreconhecível. Depois de realizar uma faxina escondida com a ajuda do sobrinho Chistopher (para não ser questionado por nenhum outro companheiro sobre o assassinato), os dois se livram do corpo e espalham que Ralf simplesmente foi embora. Tony aproveita o Bad-a-bing para se limpar e trocar de roupa, mas acaba dormindo por lá. Quando acorda na manhã seguinte, está sozinho no local. Então usa um espelho do camarim das strippers para dar uma olhada no rosto ferido e nota uma pequena foto entre muitas coladas no espelho: é a moça morta por Ralf. O episódio acaba com Tony, redimido, saindo da escuridão do inferninho para a claridade lá fora.
Esse é o tipo de trama apresentada pela série. O cavalo foi apenas a desculpa que tanto Ralf quanto Tony estavam esperando para resolver aquele conflito anterior, o primeiro queria apanhar depois de perceber a merda que havia feito e o segundo no fundo sempre quis matá-lo pelo que ele fez a moça. Tony queria vingá-la, talvez. Não saberia dizer. A arte é arte quando faz perguntas sem dar respostas...
Para quem não acompanha a série, vou citar um exemplo: na 3ª terceira temporada surge uma figura chamada Ralf alguma coisa (esqueci o sobrenome agora), um sujeitinho metido que simboliza o que eu escrevi acima sobre mafiosos delirantes. Pior que isso, se trata de um louco, que maltrata mulheres e arma confusões. De cara Tony não gostou dele e deixou isso bem claro, mas pelo bem dos negócios e lucro pessoal que recebia, nada fazia a respeito. Certo dia, porém, Ralf perde o controle após ser confrontado por uma stripper grávida com quem tinha um caso e a espanca até a morte nos fundos do Bad-a-bing, inferninho que seu pessoal administra. Tony parte para cima dele quando descobre e é contido pelos companheiros, por quem é convencido a esquecer tudo pelos mesmos motivos que eu já citei. E fica por isso mesmo.
Se passa um ano e Ralf apronta novamente. Após seu filho sofrer um acidente e ficar em coma, ele dá sinais de estar se redimindo, chora e pede desculpas a um padre, todo aquele processo. Até melhora seu relacionamento com Tony. Mas talvez por inconscientemente saber a reação que sua próxima atitude traria, Ralf incendeia o potreiro que abrigava o cavalo de corrida (e xodó) de Tony (sem deixar nenhuma testemunha), animal pelo qual tiveram uma disputa no passado. Desconfiado, Tony visita o "amigo" e depois de enrolar um pouco pergunta sobre o bicho, Ralf nega no começo, também enrola, mas no fim admite. Não lembro quem deu o primeiro soco. O importante é que pouco tempo depois o corpo de Ralf está no chão, com a cabeça estraçalhada e o rosto irreconhecível. Depois de realizar uma faxina escondida com a ajuda do sobrinho Chistopher (para não ser questionado por nenhum outro companheiro sobre o assassinato), os dois se livram do corpo e espalham que Ralf simplesmente foi embora. Tony aproveita o Bad-a-bing para se limpar e trocar de roupa, mas acaba dormindo por lá. Quando acorda na manhã seguinte, está sozinho no local. Então usa um espelho do camarim das strippers para dar uma olhada no rosto ferido e nota uma pequena foto entre muitas coladas no espelho: é a moça morta por Ralf. O episódio acaba com Tony, redimido, saindo da escuridão do inferninho para a claridade lá fora.
Esse é o tipo de trama apresentada pela série. O cavalo foi apenas a desculpa que tanto Ralf quanto Tony estavam esperando para resolver aquele conflito anterior, o primeiro queria apanhar depois de perceber a merda que havia feito e o segundo no fundo sempre quis matá-lo pelo que ele fez a moça. Tony queria vingá-la, talvez. Não saberia dizer. A arte é arte quando faz perguntas sem dar respostas...
sábado, 4 de agosto de 2007
Final de Heroes: Eca...
Que finalzinho mais tosco e mal explicado esse...
A série parecia que estava engrenando, mas os dois últimos episódios deixaram muito a desejar. Para começar, a Nikki e família, que nunca participaram de porra nenhuma, mataram o Linderman sem clímax algum, só para dar motivo a inexplicável presença deles na série. Ela também dá uma bordoada no Sylar, de novo apenas para dizer a que veio. Sem contar que seu arco pessoal já estava velho ainda nos primeiros episódios.
Mas o pior foi o desfecho da temporada mesmo. Recapitulando: Hiro aparece, avisa que chegou, grita, corre, posiciona a espada e nesse tempo todo o Sylar fica só olhando. Porra é essa! E como se não bastasse esse momento bizarro, depois disso todo mundo resolve botar a conversa em dia e deixam o puto caído lá, agonizando, mas ninguém se dá o trabalho de ver se ele estava vivo ou morto! Pior, o maldito foge e ninguém percebe, vão todos embora, felizes da vida...
Enquanto isso, o Nathan fica bonzinho depois de ouvir um sermão clichê da bastardinha e chega a repetir a frase depois, porque sem motivo algum achava que algo claramente possível de evitar não tinha mais jeito. Isso foi meio legal até, mas mal executado. No fim morre abraçadinho ao irmão num momento cuti-cuti.
Só não entendi uma coisa: é para o Peter ter morrido, não? No episódio nada é dito, apesar de sugerirem que ele sobreviveria devido ao poder de cura da Claire. Mas se ele sobreviver, o que garante que o poder radioativo não fugirá do controle outra vez?
Pois é...
A série parecia que estava engrenando, mas os dois últimos episódios deixaram muito a desejar. Para começar, a Nikki e família, que nunca participaram de porra nenhuma, mataram o Linderman sem clímax algum, só para dar motivo a inexplicável presença deles na série. Ela também dá uma bordoada no Sylar, de novo apenas para dizer a que veio. Sem contar que seu arco pessoal já estava velho ainda nos primeiros episódios.
Mas o pior foi o desfecho da temporada mesmo. Recapitulando: Hiro aparece, avisa que chegou, grita, corre, posiciona a espada e nesse tempo todo o Sylar fica só olhando. Porra é essa! E como se não bastasse esse momento bizarro, depois disso todo mundo resolve botar a conversa em dia e deixam o puto caído lá, agonizando, mas ninguém se dá o trabalho de ver se ele estava vivo ou morto! Pior, o maldito foge e ninguém percebe, vão todos embora, felizes da vida...
Enquanto isso, o Nathan fica bonzinho depois de ouvir um sermão clichê da bastardinha e chega a repetir a frase depois, porque sem motivo algum achava que algo claramente possível de evitar não tinha mais jeito. Isso foi meio legal até, mas mal executado. No fim morre abraçadinho ao irmão num momento cuti-cuti.
Só não entendi uma coisa: é para o Peter ter morrido, não? No episódio nada é dito, apesar de sugerirem que ele sobreviveria devido ao poder de cura da Claire. Mas se ele sobreviver, o que garante que o poder radioativo não fugirá do controle outra vez?
Pois é...
A Ruína
Décadas após a magia ser largamente disseminada pelo Mundo, a exploração de ruínas antigas e a busca insensata por conhecimento arcano tornaram-se as atividades mais comuns de Ophir, assim como a coleta de todo e qualquer artefato que pudesse conter tal poder ou no mínimo explicar como ele surgiu. Desconfiados, os gnomos diziam ter simplesmente inventado essa arte, mas essa desculpa certamente só enganava aqueles desprovidos de intelecto. De qualquer forma, o mistério somente ativava a curiosidade dos mais sagazes, e logo todo tipo de indivíduo e organização estava montando expedições para os quatro cantos do Mundo. Do lado dos humanos, tanto os clérigos, assustados com este novo poderio e inicialmente furiosos com a afronta cometida contra seus Deuses, quanto os guerreiros, interessados em ver se a magia arcana poderia ajudá-los em combate, queriam tirar proveito da situação; quanto aos elfos, muitos andarilhos errantes foram atrás de respostas, na tentativa de montar o quebra-cabeça que é a sua própria existência. Este período ficou conhecido como as Cruzadas, momento em que muitos perderam as vidas devido a confrontos e desconfiança, pois as atenções recaiam principalmente sobre os gnomos, na época em conflito com os Homens do Norte e também com os Anões das Montanhas. De fato a magia foi um dos estopins do confronto entre aqueles três povos – evento que ficou conhecido como as Guerras Nórdicas –, uma vez que assustados com as perguntas os professores da magia optaram por encerrar seus ensinos temporariamente; esta atitude, juntamente com a guerra que estava em andamento na região, afastou os exploradores estrangeiros, conduzindo-os para outras direções. É a partir deste ponto que os historiadores consideram iniciado o período das Cruzadas.
O período não durou mais de 30 anos, mas suas repercussões foram seriíssimas, uma vez que os governantes de quase toda cidade ou vila estavam mais interessados em lucrar com a nova descoberta do que em cuidar de seus povos. Além disso, havia também o desejo de encontrar respostas, e que tudo aquilo podia ser um sinal dos Deuses. Muitos regentes assumiram o trono enquanto reis perambulavam por toda Ophir junto de seus exércitos, Cavaleiros honrados sumiam de suas cavalarias e seguiam estranhas rotas, atingindo muitas vezes fins terríveis ou simplesmente desaparecendo em terrenos sombrios... havia muito dispersão, cada um seguindo o caminho que desejava, embora constantemente se encontrassem em viagem e relatassem suas aventuras. Durante as Cruzadas o verde virou barro e lama, pois agricultores e gente humilde em geral saiam em busca de terras melhores ou governantes mais justos; não era incomum encontrar carroças viradas e pilhas de ossos em trilhas longínquas. Mas o mais terrível eram as sinistras criaturas que, despertas de seus lares por ambiciosos aventureiros, vagavam na escuridão da noite, vitimando as mais diversas presas. Fome e morte foram a face dos primeiros anos das Cruzadas, mas uma década depois o mais assustador era o desconhecido; que fim teriam sofrido uma dúzia de reis e uma centena de Cavaleiros que simplesmente desapareceram? Muitos relatos conflituosos foram ouvidos, alguns sobre florestas amaldiçoadas e outros sobre fatos sem dúvida fictícios, como pássaros de fogo e serpentes com sete cabeças. A única esperança vinha na forma de estranhos guerreiros com armaduras brilhantes e poderes nunca antes visto, os chamados Paladinos: com um código de ética impecável, estes enviados dos Deuses pregavam o bem de uma maneira incansável, e foram principais responsáveis pela maneira pacífica que tudo acabou, anos depois. Muitos deles nunca disseram uma palavra ou tiraram o elmo, e eram indivíduos sem origem alguma e quando terminavam suas missões nunca mais eram vistos, mas a maioria eram pessoas comuns que certo dia ouviram o Chamado e devotaram suas vidas a fazer o bem. Entretanto, mesmo com o visível fracasso das explorações, jovens aprendizes de mago continuavam em busca de conhecimento, suas motivações ainda intactas.
De qualquer maneira, se quisessem encontrar algo deveriam se unir, e após realizarem uma inédita reunião decidiriam criar o Conselho dos Magos, grupo voltado para angariar fundos com o fim de bancar explorações mais audaciosas; e mesmo com as Cruzadas certamente no fim, levando em conta que não havia mais terreno para explorar, o Conselho deveria descobrir uma forma de improvisar. Certo dia, não muito depois da reunião, um dos membros teve uma estranha visão na qual encontrava um objeto valiosíssimo no fundo mar, então cerca de um mês depois o grupo conseguiu juntar a verba necessária para a construção de um grande navio, e nele colocaram diversos aparatos místicos e coisas de mago, na tentativa de facilitar a busca por artefatos arcanos. Surpreendentemente, logo na primeira zarpada uma espécie de radar que haviam instalado na embarcação identificou um objeto mágico perdido no Grande Mar de Ophir, mas estava muito longe da costa e os marinheiros tinham receio de ir tão longe. Porém, após serem devidamente ressarcidos, concordaram em levá-los até o ponto indicado no radar, e a viagem foi tranqüila, embora eles não parecessem se aproximar do objeto. No fim do dia o radar não indicava mais nada, e os próprios magos já achavam melhor retornar, mas infelizmente não foi possível: uma enorme fera marinha surgiu do fundo mais negro do mar e enrolou seus tentáculos em volta do navio, puxando ele para baixo e matando a maioria dos tripulantes. A criatura perseguia os sobreviventes sem piedade enquanto eles tentavam fugir numa espécie de bote que haviam conjurado, mas logo seriam alcançados. Porém, na distância conseguiram divisar uma caravela negra que se aproximava velozmente, e ficaram muito surpresos quando a fera voltou ao fundo do mar com apenas um comando de um dos tripulantes, um estranho elfo de vestes negras. De fato a embarcação era de Ilimani, e os jovens magos estavam longe da salvação...
Eram nove sobreviventes, todos treinados nos conhecimentos Arcanos, portanto não reagiram, curiosos para saber aonde seriam levados. Em um calabouço escuro dentro da caravela o grupo ficou por exatos 60 dias, período pelo qual passaram por interrogatórios e torturas, mas também por um perturbador estilo de ensino, no qual eram obrigados a ouvir sermões sobre o assassinato de Harcon pelas mãos de Beuvar enquanto eram surrados. Passados os 60 dias, foram levados para Ilimani e trancafiados numa torre maligna repleta de livros de magia avançadíssima, relíquias que provavelmente os próprios gnomos desconheciam, que falavam sobre coisas que gnomo algum ensinaria. Fora isso, havia vários livros de história relatando a ganância de Beuvar e o martírio de Harcon, assim como as origens locais da magia, material que provavelmente fora muito usado para doutrinar gerações de elfos e do que mais vivesse naquela região maldita. Feridos e sob pressão, o grupo afundou naquele material, uma vez que o acesso ao poder descrito nos livros de magia avançada só seria possível se também lessem os livros de história, e se pretendiam escapar algum dia teriam de ler os livros de qualquer maneira. Muitos anos se passaram e os aprendizes de mago eram lentamente corrompidos, pois a cada página dos livros de história eles evoluíam mais na magia arcana deturpada de Ilimani. Tudo o que estava escrito em ambos os livros convergia para somente um rumo; a busca pelo poder absoluto acima de qualquer outra ambição. Mas para isso, os discípulos precisavam de motivação, e ela estava nos trechos dos livros repletos de ódio que relatavam o fim trágico e injusto de Harcon. Desprovidos da liberdade e destruídos psicologicamente, os Nove foram vítimas fáceis da doutrinação e antes mesmo de perceberem isso já estavam corrompidos. Desejando atingir poder suficiente para desafiar e eliminar o Panteão na tentativa de vingar Harcon e dar poder ao Demônio, a quem agora serviam, a recém formada seita prestou homenagem a Morte e encerrou seu ensinamento realizando um ritual profano no qual desistiram da carne, alcançando a vida eterna. Seus corpos outrora fracos e franzinos tornaram-se ossos e lhes deram envergadura, suas mentes dúbias ganharam precisão e sabedoria. Indestrutíveis e impenetráveis, eles viraram os Arautos do Caos. O preço? Suas almas...
Destruir a prisão foi fácil, mas o Demônio ficou realmente satisfeito quando os viu, passo a passo destruindo tudo o que viam pela frente, nove esqueletos ambulantes causando pânico no que antigamente era aterrorizante. Seres de poder incomensurável escondiam-se debaixo da terra, clérigos caídos trancavam-se em seus templos, magos negros faziam o mesmo em suas torres... o plano do Demônio dera certo: seus novos seguidores eram sem dúvida alguma a criação mais horrenda de todo o Mundo. O período que muitos anos depois foi chamado de a Fecundação do Mal durou nove anos. A terra de Ilimani estava devastada pela peste e pelo fogo, e os Nove sentavam em seus tronos de ossos, negros como o Nada, vazio como seu interior. No fim daquele ano o Demônio lhes fez uma visita na forma de uma besta de nove cabeças e oitenta metros de altura, e seus altivos cavaleiros negros curvaram-se, ansiosos por orientação. Mas não houve diálogo, uma vez que nada havia para ser dito, tudo estava tão claro quanto o céu outrora fora em Ophir. Em compensação, todos foram devidamente recompensados: nove enormes capas negras e espadas bestiais, feitas de ossos, foram distribuídas, e um templo maligno foi erguido diante deles, onde fiéis poderiam adorá-los para lhes fortalecer durante a batalha definitiva. Com um mero pensamento o Demônio ressuscitou trinta cadáveres e os colocou a rezar, escolhendo o mais forte deles como Sacerdote. Agradecidos, os Nove fizeram uma prece em nome do Demônio e seu Senhor lhes deu novos nomes, intraduzíveis em qualquer língua terrestre. Encerrado o encontro, o Demônio desapareceu, deixando nove gigantescos hipogrifos negros em seu lugar. O recado era claro: hora de atacar. Obedecendo ao comando de seus donos, as bestas foram até eles, famintas por carne fresca, e naquela mesma noite os Nove alçavam vôo. Enfim chegaria o momento da Vingança de Harcon.
O palco estava montado. Decadente devido as Cruzadas, a Terra de Ophir certamente não faria frente a tal ameaça, e isso começou a se tornar bastante claro logo quando os Nove deram o primeiro passo na costa do mar, varrendo qualquer ser vivo que aparecia na frente. Os guerreiros Paladinos tentaram oferecer resistência, defendendo seus templos ou cidades com a própria vida, mas sozinhos nada fariam, afinal cada um defendia uma causa diferente. Caindo um a um juntamente com seus templos, os heróis demoraram a se unir, e quando o fizeram já era tarde demais: todos foram mortos. Uma vez que o alvo principal eram os templos, sem os quais o Panteão enfraqueceria, a primeira etapa do plano estava concretizada. A segunda tarefa seria a eliminação de toda a vida em Ophir, e se os próprios Deuses não decidissem interferir, eles também obteriam sucesso naquela ambição, pois não havia capacidade de resistência naquelas condições; os poucos heróis que restavam eram errantes ou estavam desaparecidos. Mas os Senhores de Ophir logicamente optaram por ajudar seus povos, pois sem habitantes não haveria Terra para cuidar e nem equilíbrio para manter, infelizmente Deuses demoram muito a raciocinar e milhares já haviam perecido antes de eles chegarem a uma conclusão tão óbvia. De qualquer forma, devido a uma arrogância pura os Nove não esperavam uma reação tão cedo, mas como o Panteão estava debilitado, nada que os Senhores pudessem fazer suplantaria o poder do Demônio, que controlava suas marionetes de seu reino obscuro. E de fato era verdade, mas mesmo desprovidos de grande parte de seus poderes, os Senhores ainda poderiam fazer algo, embora não diretamente; assim sendo, por três dias e três noites procuraram em todo o Mundo por alguém digno e capaz de se tornar Arauto do Panteão, e na figura quase cadavérica do antigo rei de Beuvar encontraram seu homem. O nome dele era Achlon II.
O Rei Achlon Jeremias II fora um grande governante e bom homem, mas se perdera durante as Cruzadas quando cruzara com um estranho ser, adormecendo inábil dentro de uma tumba maligna. Suas tropas de elite, os Templários, passaram anos à procura dele, mas no momento estavam de prontidão em Beuvar, esperando um ataque maciço dos Nove, que dia após dia se aproximavam mais. Os Templários de fato eram hábeis, uma vez que se tratavam dos melhores guerreiros e clérigos de toda Ophir, mas não eram páreos para o poder incomensurável dos Arautos do Caos. Porém, seu líder despertou após ouvir um chamado distante dos Senhores e, enquanto dava seus primeiros suspiros de vida após uma longa escuridão, era abençoado com uma parcela dos Poderes de cada entidade do divino Panteão; com o poder de um Relâmpago, a impetuosidade de um Redemoinho, o controle da Matéria, o ditame sobre a Criação, a força da Natureza e o domínio do Clima, Achlon II ergueu-se altivo novamente. Conjurando uma montaria mágica nunca antes vista, alçou vôo rumo sua cidade, onde em apenas alguns minutos estaria comandando a resistência definitiva contra as forças do Mal. Lá encontrou suas tropas e mesmo sem ter certeza absolutamente de quem era seu mais novo capitão, os Templários o seguiram cegamente ao campo de batalha, onde esperariam sem medo algum a chegada dos Nove. Seria sem dúvida nenhuma uma batalha épica...
E certamente foi. Com um sopro feroz o rei Achlon II derrubou os Nove de seus hipogrifos carniceiros, mas em uníssono os Arautos do Caos reagiram, e com um feitiço desconvocatório sumiram com a montaria de Achlon II. A princípio era apenas uma disputa de poderes, com feitiços variados de ambos os lados do confronto, embora nenhum causasse muitos danos ao adversário. Em pouco tempo tornou-se evidente que a batalha seria decidida no combate direto, e os Templários vibraram quando viram os Noves abandonar os céus e se aproximar de maneira limpa, mas o antigo senhor apenas observou. Porém, no instante em que o conflito se acirrava, iniciou uma prece que mudou o rumo do Mundo, atingindo seus guerreiros de maneira indescritível. Eram simples palavras de fé, mas por algum motivo os Cavaleiros de Achlon tiraram forças de um poder nunca antes visto. Emocionados, os Templários derrubavam os Cavaleiros do Demônio um a um, sem explicação alguma, reduzindo-os ao que eram antes, simples aprendizes de mago. Oito já haviam perecido, mas quando faltava apenas um, algo ainda mais inexplicável ocorreu: o último Arauto tragou os corpos inconscientes dos feiticeiros caídos, unindo suas essências a dele. Então ele se ergueu, gigantesco, o Titã do Demônio, uma criatura de 150 metros e forma indefinível, ora humana, ora celestial. Percebendo que era algo fora da alçada deles, os Templários largaram suas armas e iniciaram uma prece, então foi a vez de Achlon II revelar sua verdadeira face, emergindo na figura igualmente titânica de um vingador alado, ou somente um brilho uniforme segundo as pessoas que presenciaram a cena. O que aconteceu depois é inenarrável, mas o que pode ser dito é que horas depois os corpos sem vida dos membros do Conselho dos Magos foram encontrados, e ao lado deles jazia a antiga armadura do rei Achlon Jeremias II.
Do ponto de vista divino o que pode ser relatado é complexo, embora não incompreensível: o rei Achlon II voltou a adormecer após derrotar os Nove, encontrando junto de seus antepassados um leito confortável, e na companhia poderosa deles nunca mais sentiu vergonha. Seu corpo, porém, era grandioso demais para este Plano e nunca foi encontrado pelos Templários. Quanto aos Arautos do Caos, o Nada reclamou suas almas e todos aqueles ligados a eles, inclusive familiares e até mesmo conhecidos, tiveram suas existências eliminadas deste plano e juntamente deles perderam o direito de Ser. Agora voltando ao plano terreno, o fim da guerra também significou o término do período das Cruzadas, uma vez que ficara devidamente claro o que aconteceria com quem fosse longe demais nos conhecimentos arcanos. A partir daquele dia muitos passaram a se referir a magia arcana simplesmente como a Ruína, assim como o fenômeno que ocorre ao desobedecer o equilíbrio natural das coisas.
O período não durou mais de 30 anos, mas suas repercussões foram seriíssimas, uma vez que os governantes de quase toda cidade ou vila estavam mais interessados em lucrar com a nova descoberta do que em cuidar de seus povos. Além disso, havia também o desejo de encontrar respostas, e que tudo aquilo podia ser um sinal dos Deuses. Muitos regentes assumiram o trono enquanto reis perambulavam por toda Ophir junto de seus exércitos, Cavaleiros honrados sumiam de suas cavalarias e seguiam estranhas rotas, atingindo muitas vezes fins terríveis ou simplesmente desaparecendo em terrenos sombrios... havia muito dispersão, cada um seguindo o caminho que desejava, embora constantemente se encontrassem em viagem e relatassem suas aventuras. Durante as Cruzadas o verde virou barro e lama, pois agricultores e gente humilde em geral saiam em busca de terras melhores ou governantes mais justos; não era incomum encontrar carroças viradas e pilhas de ossos em trilhas longínquas. Mas o mais terrível eram as sinistras criaturas que, despertas de seus lares por ambiciosos aventureiros, vagavam na escuridão da noite, vitimando as mais diversas presas. Fome e morte foram a face dos primeiros anos das Cruzadas, mas uma década depois o mais assustador era o desconhecido; que fim teriam sofrido uma dúzia de reis e uma centena de Cavaleiros que simplesmente desapareceram? Muitos relatos conflituosos foram ouvidos, alguns sobre florestas amaldiçoadas e outros sobre fatos sem dúvida fictícios, como pássaros de fogo e serpentes com sete cabeças. A única esperança vinha na forma de estranhos guerreiros com armaduras brilhantes e poderes nunca antes visto, os chamados Paladinos: com um código de ética impecável, estes enviados dos Deuses pregavam o bem de uma maneira incansável, e foram principais responsáveis pela maneira pacífica que tudo acabou, anos depois. Muitos deles nunca disseram uma palavra ou tiraram o elmo, e eram indivíduos sem origem alguma e quando terminavam suas missões nunca mais eram vistos, mas a maioria eram pessoas comuns que certo dia ouviram o Chamado e devotaram suas vidas a fazer o bem. Entretanto, mesmo com o visível fracasso das explorações, jovens aprendizes de mago continuavam em busca de conhecimento, suas motivações ainda intactas.
De qualquer maneira, se quisessem encontrar algo deveriam se unir, e após realizarem uma inédita reunião decidiriam criar o Conselho dos Magos, grupo voltado para angariar fundos com o fim de bancar explorações mais audaciosas; e mesmo com as Cruzadas certamente no fim, levando em conta que não havia mais terreno para explorar, o Conselho deveria descobrir uma forma de improvisar. Certo dia, não muito depois da reunião, um dos membros teve uma estranha visão na qual encontrava um objeto valiosíssimo no fundo mar, então cerca de um mês depois o grupo conseguiu juntar a verba necessária para a construção de um grande navio, e nele colocaram diversos aparatos místicos e coisas de mago, na tentativa de facilitar a busca por artefatos arcanos. Surpreendentemente, logo na primeira zarpada uma espécie de radar que haviam instalado na embarcação identificou um objeto mágico perdido no Grande Mar de Ophir, mas estava muito longe da costa e os marinheiros tinham receio de ir tão longe. Porém, após serem devidamente ressarcidos, concordaram em levá-los até o ponto indicado no radar, e a viagem foi tranqüila, embora eles não parecessem se aproximar do objeto. No fim do dia o radar não indicava mais nada, e os próprios magos já achavam melhor retornar, mas infelizmente não foi possível: uma enorme fera marinha surgiu do fundo mais negro do mar e enrolou seus tentáculos em volta do navio, puxando ele para baixo e matando a maioria dos tripulantes. A criatura perseguia os sobreviventes sem piedade enquanto eles tentavam fugir numa espécie de bote que haviam conjurado, mas logo seriam alcançados. Porém, na distância conseguiram divisar uma caravela negra que se aproximava velozmente, e ficaram muito surpresos quando a fera voltou ao fundo do mar com apenas um comando de um dos tripulantes, um estranho elfo de vestes negras. De fato a embarcação era de Ilimani, e os jovens magos estavam longe da salvação...Eram nove sobreviventes, todos treinados nos conhecimentos Arcanos, portanto não reagiram, curiosos para saber aonde seriam levados. Em um calabouço escuro dentro da caravela o grupo ficou por exatos 60 dias, período pelo qual passaram por interrogatórios e torturas, mas também por um perturbador estilo de ensino, no qual eram obrigados a ouvir sermões sobre o assassinato de Harcon pelas mãos de Beuvar enquanto eram surrados. Passados os 60 dias, foram levados para Ilimani e trancafiados numa torre maligna repleta de livros de magia avançadíssima, relíquias que provavelmente os próprios gnomos desconheciam, que falavam sobre coisas que gnomo algum ensinaria. Fora isso, havia vários livros de história relatando a ganância de Beuvar e o martírio de Harcon, assim como as origens locais da magia, material que provavelmente fora muito usado para doutrinar gerações de elfos e do que mais vivesse naquela região maldita. Feridos e sob pressão, o grupo afundou naquele material, uma vez que o acesso ao poder descrito nos livros de magia avançada só seria possível se também lessem os livros de história, e se pretendiam escapar algum dia teriam de ler os livros de qualquer maneira. Muitos anos se passaram e os aprendizes de mago eram lentamente corrompidos, pois a cada página dos livros de história eles evoluíam mais na magia arcana deturpada de Ilimani. Tudo o que estava escrito em ambos os livros convergia para somente um rumo; a busca pelo poder absoluto acima de qualquer outra ambição. Mas para isso, os discípulos precisavam de motivação, e ela estava nos trechos dos livros repletos de ódio que relatavam o fim trágico e injusto de Harcon. Desprovidos da liberdade e destruídos psicologicamente, os Nove foram vítimas fáceis da doutrinação e antes mesmo de perceberem isso já estavam corrompidos. Desejando atingir poder suficiente para desafiar e eliminar o Panteão na tentativa de vingar Harcon e dar poder ao Demônio, a quem agora serviam, a recém formada seita prestou homenagem a Morte e encerrou seu ensinamento realizando um ritual profano no qual desistiram da carne, alcançando a vida eterna. Seus corpos outrora fracos e franzinos tornaram-se ossos e lhes deram envergadura, suas mentes dúbias ganharam precisão e sabedoria. Indestrutíveis e impenetráveis, eles viraram os Arautos do Caos. O preço? Suas almas...
Destruir a prisão foi fácil, mas o Demônio ficou realmente satisfeito quando os viu, passo a passo destruindo tudo o que viam pela frente, nove esqueletos ambulantes causando pânico no que antigamente era aterrorizante. Seres de poder incomensurável escondiam-se debaixo da terra, clérigos caídos trancavam-se em seus templos, magos negros faziam o mesmo em suas torres... o plano do Demônio dera certo: seus novos seguidores eram sem dúvida alguma a criação mais horrenda de todo o Mundo. O período que muitos anos depois foi chamado de a Fecundação do Mal durou nove anos. A terra de Ilimani estava devastada pela peste e pelo fogo, e os Nove sentavam em seus tronos de ossos, negros como o Nada, vazio como seu interior. No fim daquele ano o Demônio lhes fez uma visita na forma de uma besta de nove cabeças e oitenta metros de altura, e seus altivos cavaleiros negros curvaram-se, ansiosos por orientação. Mas não houve diálogo, uma vez que nada havia para ser dito, tudo estava tão claro quanto o céu outrora fora em Ophir. Em compensação, todos foram devidamente recompensados: nove enormes capas negras e espadas bestiais, feitas de ossos, foram distribuídas, e um templo maligno foi erguido diante deles, onde fiéis poderiam adorá-los para lhes fortalecer durante a batalha definitiva. Com um mero pensamento o Demônio ressuscitou trinta cadáveres e os colocou a rezar, escolhendo o mais forte deles como Sacerdote. Agradecidos, os Nove fizeram uma prece em nome do Demônio e seu Senhor lhes deu novos nomes, intraduzíveis em qualquer língua terrestre. Encerrado o encontro, o Demônio desapareceu, deixando nove gigantescos hipogrifos negros em seu lugar. O recado era claro: hora de atacar. Obedecendo ao comando de seus donos, as bestas foram até eles, famintas por carne fresca, e naquela mesma noite os Nove alçavam vôo. Enfim chegaria o momento da Vingança de Harcon.O palco estava montado. Decadente devido as Cruzadas, a Terra de Ophir certamente não faria frente a tal ameaça, e isso começou a se tornar bastante claro logo quando os Nove deram o primeiro passo na costa do mar, varrendo qualquer ser vivo que aparecia na frente. Os guerreiros Paladinos tentaram oferecer resistência, defendendo seus templos ou cidades com a própria vida, mas sozinhos nada fariam, afinal cada um defendia uma causa diferente. Caindo um a um juntamente com seus templos, os heróis demoraram a se unir, e quando o fizeram já era tarde demais: todos foram mortos. Uma vez que o alvo principal eram os templos, sem os quais o Panteão enfraqueceria, a primeira etapa do plano estava concretizada. A segunda tarefa seria a eliminação de toda a vida em Ophir, e se os próprios Deuses não decidissem interferir, eles também obteriam sucesso naquela ambição, pois não havia capacidade de resistência naquelas condições; os poucos heróis que restavam eram errantes ou estavam desaparecidos. Mas os Senhores de Ophir logicamente optaram por ajudar seus povos, pois sem habitantes não haveria Terra para cuidar e nem equilíbrio para manter, infelizmente Deuses demoram muito a raciocinar e milhares já haviam perecido antes de eles chegarem a uma conclusão tão óbvia. De qualquer forma, devido a uma arrogância pura os Nove não esperavam uma reação tão cedo, mas como o Panteão estava debilitado, nada que os Senhores pudessem fazer suplantaria o poder do Demônio, que controlava suas marionetes de seu reino obscuro. E de fato era verdade, mas mesmo desprovidos de grande parte de seus poderes, os Senhores ainda poderiam fazer algo, embora não diretamente; assim sendo, por três dias e três noites procuraram em todo o Mundo por alguém digno e capaz de se tornar Arauto do Panteão, e na figura quase cadavérica do antigo rei de Beuvar encontraram seu homem. O nome dele era Achlon II.
O Rei Achlon Jeremias II fora um grande governante e bom homem, mas se perdera durante as Cruzadas quando cruzara com um estranho ser, adormecendo inábil dentro de uma tumba maligna. Suas tropas de elite, os Templários, passaram anos à procura dele, mas no momento estavam de prontidão em Beuvar, esperando um ataque maciço dos Nove, que dia após dia se aproximavam mais. Os Templários de fato eram hábeis, uma vez que se tratavam dos melhores guerreiros e clérigos de toda Ophir, mas não eram páreos para o poder incomensurável dos Arautos do Caos. Porém, seu líder despertou após ouvir um chamado distante dos Senhores e, enquanto dava seus primeiros suspiros de vida após uma longa escuridão, era abençoado com uma parcela dos Poderes de cada entidade do divino Panteão; com o poder de um Relâmpago, a impetuosidade de um Redemoinho, o controle da Matéria, o ditame sobre a Criação, a força da Natureza e o domínio do Clima, Achlon II ergueu-se altivo novamente. Conjurando uma montaria mágica nunca antes vista, alçou vôo rumo sua cidade, onde em apenas alguns minutos estaria comandando a resistência definitiva contra as forças do Mal. Lá encontrou suas tropas e mesmo sem ter certeza absolutamente de quem era seu mais novo capitão, os Templários o seguiram cegamente ao campo de batalha, onde esperariam sem medo algum a chegada dos Nove. Seria sem dúvida nenhuma uma batalha épica...E certamente foi. Com um sopro feroz o rei Achlon II derrubou os Nove de seus hipogrifos carniceiros, mas em uníssono os Arautos do Caos reagiram, e com um feitiço desconvocatório sumiram com a montaria de Achlon II. A princípio era apenas uma disputa de poderes, com feitiços variados de ambos os lados do confronto, embora nenhum causasse muitos danos ao adversário. Em pouco tempo tornou-se evidente que a batalha seria decidida no combate direto, e os Templários vibraram quando viram os Noves abandonar os céus e se aproximar de maneira limpa, mas o antigo senhor apenas observou. Porém, no instante em que o conflito se acirrava, iniciou uma prece que mudou o rumo do Mundo, atingindo seus guerreiros de maneira indescritível. Eram simples palavras de fé, mas por algum motivo os Cavaleiros de Achlon tiraram forças de um poder nunca antes visto. Emocionados, os Templários derrubavam os Cavaleiros do Demônio um a um, sem explicação alguma, reduzindo-os ao que eram antes, simples aprendizes de mago. Oito já haviam perecido, mas quando faltava apenas um, algo ainda mais inexplicável ocorreu: o último Arauto tragou os corpos inconscientes dos feiticeiros caídos, unindo suas essências a dele. Então ele se ergueu, gigantesco, o Titã do Demônio, uma criatura de 150 metros e forma indefinível, ora humana, ora celestial. Percebendo que era algo fora da alçada deles, os Templários largaram suas armas e iniciaram uma prece, então foi a vez de Achlon II revelar sua verdadeira face, emergindo na figura igualmente titânica de um vingador alado, ou somente um brilho uniforme segundo as pessoas que presenciaram a cena. O que aconteceu depois é inenarrável, mas o que pode ser dito é que horas depois os corpos sem vida dos membros do Conselho dos Magos foram encontrados, e ao lado deles jazia a antiga armadura do rei Achlon Jeremias II.
Do ponto de vista divino o que pode ser relatado é complexo, embora não incompreensível: o rei Achlon II voltou a adormecer após derrotar os Nove, encontrando junto de seus antepassados um leito confortável, e na companhia poderosa deles nunca mais sentiu vergonha. Seu corpo, porém, era grandioso demais para este Plano e nunca foi encontrado pelos Templários. Quanto aos Arautos do Caos, o Nada reclamou suas almas e todos aqueles ligados a eles, inclusive familiares e até mesmo conhecidos, tiveram suas existências eliminadas deste plano e juntamente deles perderam o direito de Ser. Agora voltando ao plano terreno, o fim da guerra também significou o término do período das Cruzadas, uma vez que ficara devidamente claro o que aconteceria com quem fosse longe demais nos conhecimentos arcanos. A partir daquele dia muitos passaram a se referir a magia arcana simplesmente como a Ruína, assim como o fenômeno que ocorre ao desobedecer o equilíbrio natural das coisas.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Sonhos aventurescos...
Uma noite dessas eu tive um sonho estranho. Começou com uma batalha aérea, onde bizarras máquinas de guerra sobrevoavam um platô, escondido entre um desfiladeiro rochoso e ladeado por um grande lago, que por sua vez era interrompido pela encosta de um vulcão na outra extremidade da margem. Os maquinários surgiam do meio desse lago e flutuavam na direção de uma série de cavernas na montanha, onde habitava um povo de feições bárbaras. As naves invasoras eram manuseadas por estranhos seres parecidos com humanos, mas com a pele azulada, guelras e olhos negros sem pálpebras. Não demorei a perceber que se tratava de uma raça Atlante ou algo parecido. Aos poucos também notei que os mecanismos adotados por eles tinham uma tecnologia similar a nossos balões e zeppelins, e eram controlados por uma complexa combinação de alavancas. A guerra iniciou quando os invadidos deixaram suas tocas e casebres rústicos e responderam com uma saravaida de flechas e pedradas.
Logo boa parte das naves murcharam e afundaram no lago, as restantes sofriam para encontrar espaço para aterrissar em meio a horda crescente de bárbaros cabeludos. As que conseguiram, abriam uma comporta traseira que liberava caminho para altivos guerreiros atlantes, alabardas em mãos e bestas presas nas costas. Alguns partiam para o combate corpo-a-corpo, onde demonstravam técnicas de luta muito superiores e jamais vistas na superfície, enquanto outros procuravam abrigos de onde poderiam disparar suas setas de ferro em segurança. Ainda assim, devido ao maior número de adversários e falta de conhecimento do terreno, a disputa era acirrada.
Mas os atlantes possuíam mais cartas na manga, na figura de veículos terrestres em forma de tripé que emergiam d'água, com um tripulante dentro e no comando de poderosos tentáculos de metal, dilacerando tudo no caminho. Do lago também surgiam plataformas repletas de lanceiros e atlantes montados em criaturas marinhas, com armas que disparavam um gancho preso a uma corda, assim como diversas outras máquinas hidráulicas terrestres e aéreas, tudo de uma beleza impecável, que enganava os olhos. Não pude ver se eram sólidas ou líquidas, parecia uma harmoniosa união entre uma coisa e outra.
A vitória se aproximava e eu sentia que os atlantes mereciam vencer por algum motivo, então um estrondo interrompeu a guerra e uma fumaça negra cobriu o ar, sufocando o punhado de bárbaros que haviam sobrado, fazendo-os procurar abrigo. Mas os atlantes encaravam o monstro, sem medo. O vulcão rugia, desafiador, exalando um vapor cada vez mais tóxico. Lava fétida escorria na direção do lago, e quando deram por si, os guerreiros do mar estavam cercados, uma vastidão de covardes apareceu do nada no momento em que se viram em vantagem. Lobos selvagens presos a correntes salivavam, assim como seus domadores.
E após um breve período de hesitação, onde cada um esperava a iniciativa do outro, uma voz melódica e de sabedoria infinita deu uma ordem. Descendo de uma gigantesca fera marinha similar a uma serpente, o rei sugeriu um acordo, que mais parecia uma rendição. Um velho enrugado e de tosse contínua concordou, sorrindo triunfante num esgar doentio. Assim a curta batalha se encerrou. Aparentemente o soberano atlante entregou sua coroa ao cacique dos homens, em troca, o velho moribundo deixaria os prisioneiros voltarem ao mar para proteger seus lares. Não houve despedida, muito menos lágrimas, apenas um curvar em uníssono que não parecia ensaiado. O filho primogênito do rei aceitou o tridente real e disparou uma corneta em formato de concha. Sem baixar a cabeça, o exército atlante voltou de onde veio, deixando o patriarca para trás. Os poucos bárbaros que se opuseram foram devorados por monstros marinhos antes de impedir a marcha dos guerreiros.
Por centenas de anos o antigo rei da última estirpe de uma nobre raça ajudou os humanos a evoluir, lhes ensinando a escrita e tantos outros dons, e durante todo esse tempo permaneceu acorrentado. Quando a última horda de exploradores deixou o local, o chefe decidiu soltá-lo, uma vez que ele não tinha mais uso. Orfão de seu povo, o rei transformado em escravo permaneceu no desfiladeiro, onde viveu por mais alguns séculos, vendo o mundo mudar por meio de sua visão quase sem limites. Ele viu o mesmo povoado que lhe abandonou conquistar outro povoado e assim por diante, até a criação do império e sua quietude mais selvagem que qualquer vila de bárbaros. Acabou morrendo de inanição certo dia, decepcionado, pois apesar de ter oferecido imensa sabedoria aos homens, a arte da guerra foi a única coisa que aprenderam.
Assim eu vi desaparecer a raça original daquele mundo, para nunca mais voltar.
Logo boa parte das naves murcharam e afundaram no lago, as restantes sofriam para encontrar espaço para aterrissar em meio a horda crescente de bárbaros cabeludos. As que conseguiram, abriam uma comporta traseira que liberava caminho para altivos guerreiros atlantes, alabardas em mãos e bestas presas nas costas. Alguns partiam para o combate corpo-a-corpo, onde demonstravam técnicas de luta muito superiores e jamais vistas na superfície, enquanto outros procuravam abrigos de onde poderiam disparar suas setas de ferro em segurança. Ainda assim, devido ao maior número de adversários e falta de conhecimento do terreno, a disputa era acirrada.
Mas os atlantes possuíam mais cartas na manga, na figura de veículos terrestres em forma de tripé que emergiam d'água, com um tripulante dentro e no comando de poderosos tentáculos de metal, dilacerando tudo no caminho. Do lago também surgiam plataformas repletas de lanceiros e atlantes montados em criaturas marinhas, com armas que disparavam um gancho preso a uma corda, assim como diversas outras máquinas hidráulicas terrestres e aéreas, tudo de uma beleza impecável, que enganava os olhos. Não pude ver se eram sólidas ou líquidas, parecia uma harmoniosa união entre uma coisa e outra.
A vitória se aproximava e eu sentia que os atlantes mereciam vencer por algum motivo, então um estrondo interrompeu a guerra e uma fumaça negra cobriu o ar, sufocando o punhado de bárbaros que haviam sobrado, fazendo-os procurar abrigo. Mas os atlantes encaravam o monstro, sem medo. O vulcão rugia, desafiador, exalando um vapor cada vez mais tóxico. Lava fétida escorria na direção do lago, e quando deram por si, os guerreiros do mar estavam cercados, uma vastidão de covardes apareceu do nada no momento em que se viram em vantagem. Lobos selvagens presos a correntes salivavam, assim como seus domadores.
E após um breve período de hesitação, onde cada um esperava a iniciativa do outro, uma voz melódica e de sabedoria infinita deu uma ordem. Descendo de uma gigantesca fera marinha similar a uma serpente, o rei sugeriu um acordo, que mais parecia uma rendição. Um velho enrugado e de tosse contínua concordou, sorrindo triunfante num esgar doentio. Assim a curta batalha se encerrou. Aparentemente o soberano atlante entregou sua coroa ao cacique dos homens, em troca, o velho moribundo deixaria os prisioneiros voltarem ao mar para proteger seus lares. Não houve despedida, muito menos lágrimas, apenas um curvar em uníssono que não parecia ensaiado. O filho primogênito do rei aceitou o tridente real e disparou uma corneta em formato de concha. Sem baixar a cabeça, o exército atlante voltou de onde veio, deixando o patriarca para trás. Os poucos bárbaros que se opuseram foram devorados por monstros marinhos antes de impedir a marcha dos guerreiros.
Por centenas de anos o antigo rei da última estirpe de uma nobre raça ajudou os humanos a evoluir, lhes ensinando a escrita e tantos outros dons, e durante todo esse tempo permaneceu acorrentado. Quando a última horda de exploradores deixou o local, o chefe decidiu soltá-lo, uma vez que ele não tinha mais uso. Orfão de seu povo, o rei transformado em escravo permaneceu no desfiladeiro, onde viveu por mais alguns séculos, vendo o mundo mudar por meio de sua visão quase sem limites. Ele viu o mesmo povoado que lhe abandonou conquistar outro povoado e assim por diante, até a criação do império e sua quietude mais selvagem que qualquer vila de bárbaros. Acabou morrendo de inanição certo dia, decepcionado, pois apesar de ter oferecido imensa sabedoria aos homens, a arte da guerra foi a única coisa que aprenderam.
Assim eu vi desaparecer a raça original daquele mundo, para nunca mais voltar.
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