sábado, 1 de janeiro de 2011

Liberdade

Não sei por onde começar. O que afinal era o longo inferno? Por que deixei a situação chegar naquele ponto? Com o tempo percebi que foi uma escolha, uma responsabilidade que impus a mim mesmo, embora não fosse da minha alçada. Fui convencido por meu ego que estava acima dele, vocês sabem de quem eu falo, que precisava cuidar dele quando na verdade nunca cuidei de mim mesmo, talvez para negar que estava na mesma situação. Mas com o tempo foram surgindo sentimentos, desejos, e algumas pessoas começaram a ter mais valor para mim, enquanto ele seguia seu destino de herói incorruptível, um verdadeiro Cavaleiro Branco. Já eu era um Cavaleiro das Trevas, dando mais importância aos outros do que a mim mesmo, e seguindo o mesmo destino dele nesse processo, ainda que no fundo não fosse o meu destino, porque não era o que eu queria, mas o que eu achava que precisava fazer. Assim fiquei com ele até o fim, como não poderia deixar de ser, porque eu aguentava as trevas. Por ele eu neguei a mim mesmo e faria tudo outra vez. Mas o que fazer agora que estava livre? Como seguir vivendo com esse peso na consciência que é o simples fardo de estar vivo e ele não? Mas era esse o destino dele, e mesmo que eu tenha me entregado a esse mesmo destino, ele nunca me pediu para fazer isso. Eu sempre estive livre. Por mais terrível que seja dizer isso, me pergunto se ele não partiu tão cedo para me libertar, como seu último ato heróico. Sei que mais uma vez esse é o meu ego falando, minha necessidade infantil de fazer drama e romantizar as coisas, assim como a idéia tola de que falhei ao deixar ele partir, que decepcionei a todos ao não poder fazer nada. Mas certas coisas são difíceis de serem deixadas para trás. Não mais. Que o viking parta em seu barco e nunca mais precise voltar, que o vampiro encontre paz na luz do dia, que o Lenhador se case com uma bela mulher na aldeia e tenha muitos filhos, que o Lobo Mau corra de volta para sua toca e deixe Chapéuzinho Vermelho em paz, e principalmente que ela cresça e veja que o garotinho assustado está virando homem. Alguém muito mais forte que qualquer figura do meu subconsciente. Ele está livre. O verão chegou.

6 comentários:

Anônimo disse...

Sem te conhecer te admiro! Alma nobre, sujeito inteiro e grande! Escreves da profundeza adquirida pela alma de alguém que vive há muito. Sabedoria serena e inquieta...da vida.

Elizabete silva disse...

Ele também a amava?

Brizola disse...

Não entendi a pergunta.

Elizabete silva disse...

Quem seria este cavaleiro branco?
Ele abriu mão de quê,para o cavaleiro das trevas?

Brizola disse...

Foi o contrário. O negro que sou eu, teria se sacrificado.

Elizabete silva disse...

O NEGRO EU ENTENDI Q ERA VC... E AGORA LENDO NOVAMENTE, VEJO Q O BRANCO TAMBÉM (SÓ Q AOS OLHOS DAS OUTRAS PESSOAS).
SEU TEXTOS SÃO COMPLEXOS, TENHO Q LÊ-LOS COM CALMA E DE PREFERÊNCIA NO SILÊNCIO...PARA NÃO COMENTAR BESTEIRA COMO ACABEI FAZENDO.
PERDOE-ME!?