sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O Soldado Invernal

Em janeiro de 2005, simultaneamente ao relançamento da revista Avengers (desde então com a palavra "New" no título), a Marvel também decidiu zerar a revista do Capitão América a fim de iniciar uma nova fase do personagem, mais atual e condizente com a realidade. Tudo como consequência da saga A Queda, que envolveu diversas revistas e marcou o começou da passagem de Brian Michael Bendis nos Vingadores, grupo que foi escolhido para renovar. Assim nasceu o sucesso New Avengers, que junto com a reformulação do Homem de Ferro nas mãos do experiente Warren Ellis e da nova fase de Ed Brubaker com o Capitão América, catapultou de vez a Marvel para o século 21, tornando a Era de Preta um devaneio utópico para os adeptos da nostalgia. Porém, o público moderno e a crítica especializada vibraram com a mudança, principalmente pelos nomes envolvidos. Ellis sempre agradou e Bendis havia se tornado uma estrela com sua passagem antológica no Demolidor e trabalhos no Ultiverso ao lado do parceiro Mark Millar (coincidentemente, foi o sucesso do trabalho dos dois na linha que estimulou as mudanças no universo regular), mas o nome de Brubaker ainda não era expressivo o bastante para torná-lo uma unanimidade, embora fosse elogiado por trabalhos secundários na DC.

Sua passagem no Capitão começou um tanto discreta, mas de maneira muito competente, inteirada no contexto pós-11/09. A principal razão do sucesso inicial da revista e grande acerto da parte de
Brubaker, foi o foque especial dado ao lado psicológico do simbólico protagonista, que diferente de antigas versões datadas, não é um sentinela da liberdade, e sim um soldado que de vez em quando precisa sujar as mãos e tomar atitudes extremas quando necessário. Seu estilo é mais Jack Bauer do que Superman, como um dia Ed Brubaker colocou. Logo na primeira edição o autor já deixou bem clara a mudança: após sua última missão, na qual causou a morte de dois terroristas para impedir um atentado, ele é questionado por sua antiga namorada e agente da S.H.I.E.L.D. Sharon Carter, pois não costumava agir assim. Uma declaração verdadeira, levando em conta que ao longo de sua setuagenária história nos quadrinhos o Capitão só havia tirado a vida de um inimigo uma única vez e nem mesmo durante a 2ª Guerra Mundial era admitido que ele matou alguns nazistas, sendo que fora criado pelos americanos para ser uma arma viva. Mas como citei antes, essa mudança de comportamento é um mero reflexo dos conflitos internos do personagem, na forma de pesadelos sobre a guerra e uma raiva misturada com desprezo em relação ao próprio país e os tempos modernos.

Para entender melhor o contexto dessa transformação é preciso lembrar do evento
A Queda, onde a mutante chamada Feiticeira Escarlate, integrante do grupo Vingadores (ao qual o Capitão América liderava na época), perdeu o controle dos poderes de alteração da realidade e indiretamente causou a morte de alguns companheiros. A tragédia foi o elemento catártico que iniciou a nova fase da linha que englobava a revista Avengers e os títulos solo de seus membros mais clássicos, como o Homem de Ferro e Thor (este último teve sua revista simplesmente cancelada, para voltar somente há 2 meses atrás nos EUA), e mesmo tendo vital importância na direção que o Brubaker deu ao Capitão, o melhor exemplo continua sendo o que Ellis e seus sucessores fizeram ao Homem de Ferro, que levou o maior baque por sempre ter sido o financiador e grande entusiasta da equipe. Resumindo rapidamente, Tony Stark assumiu a postura de futurista e todas as atitudes que tomou depois disso foram para prevenir ou deter ameaças antes que elas se tornassem grandes demais, como foi o caso da Feiticeira Escarlate. Todos sabiam do perigo que sua mente cada vez mais frágil representava, mas ninguém teve a coragem ou visão de cuidar do problema. Outro aviso de que a inocência e otimismo descompromissado do passado haviam chegado ao fim.

Em Capitão América, por outro lado,
Brubaker optou por esclarecer lentamente a mudança de Steve Rogers, fazendo o velho soldado direcionar sua frustração ao serviço, até porque gente da época dele não costumava expor os sentimentos. Porém, para ele suas atitudes agressivas são proporcionais ao mundo cada vez mais perigoso em que vivemos, onde nem mesmo um governo corruptível é confiável. Esse é o tom ao longo do razoável primeiro arco, com o Capitão preferindo descontar sua frustração nos inimigos ao invés de lidar com a repercussão d'Queda, tendo de engolir a burocracia que o impede de pôr as mãos no homem responsável por ataques terroristas, e só enfrentando os próprios problemas nos pesadelos da guerra ao lado do falecido parceiro Bucky. No fim do arco ele descobre que o eficaz assassino que trabalha para o vilão Aleksander Lukin, ex-general soviético que virou um rico empresário, é ninguém menos que Bucky, seu amigo dado como morto na guerra. Bucky, agora com o nome de Soldado Invernal, é um mítico agente soviético que matou inimigos da Rússia durante a Guerra Fria, herdado por Lukin das mãos de outro general, um homem chamado Valery Karpov, que lutou ao lado do Capitão América na 2ª guerra e se sentiu humilhado por seguir ordens de um inferior.

Sua vingança começou quando encontrou o corpo de
Bucky conservado em gelo após o mesmo acidente que supostamente matou o Capitão, então tratou de seus ferimentos (inclusive um braço perdido, que logo foi trocado por outro mecânico), fez lavagem cerebral no rapaz e o transformou num soldado soviético que nunca desacata uma ordem. Claro que Karpov morreu antes de saber que sua criação encontrou o homem que tanto desprezava, o que tornaria ainda mais saborosa a sensação de transformar o melhor amigo dele num assassino sem consciência, mas Lukin fez questão de cumprir os desejos do falecido general ao usar o Cubo Cósmico para torturar seu inimigo com pesadelos da guerra e estranhas visões diurnas sobre o dia em que Bucky morreu. Tudo para piorar a terrível revelação e enfraquecer o Capitão. Além disso, no mesmo dia que o bandeiroso descobriu a origem do Soldado Invernal, Lukin usou seu capanga para detonar uma bomba incendiária na Filadélfia e matar centenas de pessoas, fazendo questão de atrair Rogers para a cidade no momento da explosão. Logo em seguida, no excelente arco intitulado "O Soldado Invernal", o Capitão descobre mais sobre o que houve com Bucky e "explode", destruindo um monitor de vídeo que mostrava as atrocidades cometidas pelo Soldado Invernal, então mesmo sem provas concretas que liguem Lukin ao atentado, decide atacá-lo em uma das sedes de sua empresa, a Kronas, mas novamente esbarra na burocracia ao descobrir que a Kronas comprou uma empresa petrolífera americana. Sem poder prender o ex-general, o Capitão embarca em outra missão, agora para salvar Bucky, que recebera a ordem de esconder o Cubo Cósmico numa instalação secreta.

Localizando o misterioso
objeto com a ajuda de Tony Stark, o herói pede apoio ao amigo Falcão para acompanhá-lo e assim dispensa a ajuda da S.H.I.E.L.D., isolando-se completamente da lei, como Jack Bauer algum botaria defeito. Sem muita preocupação com o parceiro alado, o Capitão rompe a primeira barreira defensiva e invade o local, onde logo encontra o Soldado Invernal e tenta descobrir se Bucky ainda está ali antes de tomar medidas extremas para recuperar o Cubo Cósmico. De certa forma, ele precisa fazer isso antes de aceitar a realidade que seu amigo se foi para sempre, pois para o próprio bem deve acreditar que não é uma mera máquina programada para matar. Nas histórias antigas, Bucky era o parceiro-mirim do Capitão América durante a 2ª guerra e representava o ideal do jovem americano que voluntariamente escolhe servir seu país, e aqui representa a inocência que o protagonista e a própria Marvel perdeu. Imaginem só, o símbolo da juventude pró-guerra transformado num comunista assassino, ao mesmo tempo que o exemplo vivo do sonho americano lida com o fato que fizeram algo parecido com ele. No final, o Capitão consegue tirar o Cubo das mãos do Soldado Invernal e o usa para devolver ao rapaz suas memórias, mas Bucky, agora de volta a si, não reage bem e depois de recuperar o objeto novamente, o destrói e desaparece na explosão. Como aceitar ter se tornado exatamente o contrário do que sempre representou?

Claro, logo depois
Bucky reapareceu e virou uma espécie de anti-herói e o nível da revista caiu um pouco, mas Ed Brubaker concorreu a uma série de prêmios por causa do arco "O Soldado Invernal", também conquistando o respeito dos fãs e alçando seu nome a um patamar até superior que seus parceiros do reload dos Vingadores. Guardadas as proporções, o considero apenas um autor competente que teve uma grande sacada. O mais importante é avaliar seu trabalho como uma avaliação do contexto atual da Marvel em relação aos EUA, algo que futuramente seria ainda mais aprofundado na Guerra Civil.

Mas isso é outra história...

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