No mundo da família Soprano o importante é tentar ser forte e não esquecer da própria humanidade no processo. Esse é um tema recorrente na vida de Tony, patriarca da família e chefão da máfia de Nova Jersey. Não que sua vida e forma de ser sejam um exemplo, mas dentro da metáfora da série ele é um herói, com lampejos de consciência e sabedoria, sempre em conflito com gente que tenta enfraquecê-lo, sejam familiares mesquinhos ou outros mafiosos com delírios de grandeza.
Para quem não acompanha a série, vou citar um exemplo: na 3ª terceira temporada surge uma figura chamada Ralf alguma coisa (esqueci o sobrenome agora), um sujeitinho metido que simboliza o que eu escrevi acima sobre mafiosos delirantes. Pior que isso, se trata de um louco, que maltrata mulheres e arma confusões. De cara Tony não gostou dele e deixou isso bem claro, mas pelo bem dos negócios e lucro pessoal que recebia, nada fazia a respeito. Certo dia, porém, Ralf perde o controle após ser confrontado por uma stripper grávida com quem tinha um caso e a espanca até a morte nos fundos do Bad-a-bing, inferninho que seu pessoal administra. Tony parte para cima dele quando descobre e é contido pelos companheiros, por quem é convencido a esquecer tudo pelos mesmos motivos que eu já citei. E fica por isso mesmo.
Se passa um ano e Ralf apronta novamente. Após seu filho sofrer um acidente e ficar em coma, ele dá sinais de estar se redimindo, chora e pede desculpas a um padre, todo aquele processo. Até melhora seu relacionamento com Tony. Mas talvez por inconscientemente saber a reação que sua próxima atitude traria, Ralf incendeia o potreiro que abrigava o cavalo de corrida (e xodó) de Tony (sem deixar nenhuma testemunha), animal pelo qual tiveram uma disputa no passado. Desconfiado, Tony visita o "amigo" e depois de enrolar um pouco pergunta sobre o bicho, Ralf nega no começo, também enrola, mas no fim admite. Não lembro quem deu o primeiro soco. O importante é que pouco tempo depois o corpo de Ralf está no chão, com a cabeça estraçalhada e o rosto irreconhecível. Depois de realizar uma faxina escondida com a ajuda do sobrinho Chistopher (para não ser questionado por nenhum outro companheiro sobre o assassinato), os dois se livram do corpo e espalham que Ralf simplesmente foi embora. Tony aproveita o Bad-a-bing para se limpar e trocar de roupa, mas acaba dormindo por lá. Quando acorda na manhã seguinte, está sozinho no local. Então usa um espelho do camarim das strippers para dar uma olhada no rosto ferido e nota uma pequena foto entre muitas coladas no espelho: é a moça morta por Ralf. O episódio acaba com Tony, redimido, saindo da escuridão do inferninho para a claridade lá fora.
Esse é o tipo de trama apresentada pela série. O cavalo foi apenas a desculpa que tanto Ralf quanto Tony estavam esperando para resolver aquele conflito anterior, o primeiro queria apanhar depois de perceber a merda que havia feito e o segundo no fundo sempre quis matá-lo pelo que ele fez a moça. Tony queria vingá-la, talvez. Não saberia dizer. A arte é arte quando faz perguntas sem dar respostas...
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
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